Deus parou de chamar os jovens ao sacerdócio?
A missão profética de Jesus é marcada pelo anúncio do Reino de Deus, através da efusão do Espírito Santo, o qual tudo renova e transforma. Pelo Espírito participamos da eterna novidade de salvação do Pai que, no hoje do tempo e da história, nos configura a seu Filho. É, pois, através da participação na unção do Cristo, que nós recebemos o Espírito e nos é comunicada a juventude da vida na graça. Enfim, Deus é eternamente jovem e surpreendente[^1], e é a partir da efusão do Seu Espírito que experimentamos a juventude vital do Cristo Ressuscitado.
À luz do que foi exposto, impõem-se algumas questões fundamentais: diante da perene novidade da salvação cristã, porque nos deparamos com uma drástica redução no número das vocações juvenis? É possível que Deus tenha parado de chamar os jovens ao sacerdócio? É concebível que o catolicismo tenha se esgotado em sua vitalidade? Em síntese, as respostas a tais questões revelam-se complexas; por isso, neste breve texto, buscaremos analisá-las e oferecer algumas pistas reflexivas e pastorais, sem a pretensão de estabelecer respostas definitivas.
O Papa Francisco, em sua magistral Exortação Apostólica Pós-sinodal Christus Vivit, nos recorda que vivemos num mundo em crise, onde muitas vidas jovens estão expostas ao sofrimento e à manipulação (n.71-72). Semelhante a uma caixa de refração, a Igreja sofre as dores e tribulações do mundo - visto que dela vem seus membros - e se compadece especialmente dos mais jovens. Como primeiro fator determinante da crise vocacional, elencamos a consolidação de uma cultura do descarte que, ao difundir banalidades fúteis e efêmeras no imaginário juvenil, acaba por gerar um torpor existencial, no qual os sonhos e aspirações dos jovens se veem anestesiados diante de uma lógica consumista e egocêntrica.
Nas palavras do Papa Francisco, “vemos como essa publicidade (voltada ao descarte) ensina as pessoas a estar sempre insatisfeitas e contribui para a cultura do descarte, na qual os próprios jovens se convertem em material descartável” (CV, n.78 – grifos do autor). Não obstante a efemeridade dos bens materiais, os próprios jovens esvaziam-se de sua dignidade intrínseca, reduzidos pela sociedade a uma materialidade consumista. Aqui situa-se a primeira tensão: como desenvolver nos jovens uma abertura ao chamamento divino, tendo em vista inseri-los na dinamicidade do amor oblativo, se vivemos uma profunda crise da superficialidade e do esvaziamento da dignidade humana?
Por continuidade, elencamos como segundo fator determinante a precoce e excessiva sexualização dos jovens, os quais, imersos numa concepção imediatista e hedonista, voltam-se aos prazeres venéreos em busca de sentido à vida. É nesse contexto que desenvolvem deficiências na integração e no reconhecimento sadios da própria sexualidade e identidade: “em um mundo que enfatiza excessivamente a sexualidade, é difícil manter uma boa relação com o próprio corpo e viver serenamente as relações afetivas” (CV, n.81). Aqui situa-se a segunda tensão: como transmitir aos jovens da atualidade valores ligados a uma vivência ordenada da afetividade? Como reafirmar o celibato sacerdotal como dom inefável e precioso de Deus, a uma juventude marcada pela revolução sexual[^2]?
Como terceiro desafio, apontamos as dificuldades inerentes ao ambiente digital, característico do mundo contemporâneo. Diante de jovens cada vez mais conectados às redes sociais, observa-se, não raras vezes, um enfraquecimento da capacidade humana de diálogo e de encontro autêntico com o outro. Tal realidade afeta “de modo muito profundo a noção de tempo e de espaço, a percepção de si mesmo, dos outros e do mundo, bem como o modo de comunicar, de aprender, de informar-se e de entrar em relação com os outros” (CV, n. 86). Excessivamente imersos nas dinâmicas do mundo digitalizado, muitos jovens acabam por se distanciar da realidade concreta e da vida que brota do vigor próprio da juventude. Aqui se delineia a terceira tensão: como fomentar, entre os jovens, uma cultura que priorize o cuidado e o encontro concreto com o outro? E, de modo particular, como esclarecer na consciência do jovem vocacionado a necessidade de estabelecer vínculos reais, respeitosos e saudáveis para o amadurecimento e a vivência autêntica de sua vocação?
Por fim, ressaltamos que este texto não pretende apresentar respostas prontas, mas antes suscitar as consciências à reflexão sobre o papel de cada cristão batizado no acompanhamento e no auxílio aos jovens, especialmente no que diz respeito ao discernimento de suas vocações. É evidente que Deus continua a chamar operários à sua messe, contudo a atuação da graça está sujeita às limitações de nossa condição humana. Finalmente, a nós cabe o empenho de fomentar, cuidar e rezar por cada jovem, apresentando acima de tudo um testemunho de vida concreto e coerente, que seja como luz e sinal da presença amorosa de Deus. Pelo Espírito Santo, mantemos viva a experiência de salvação e nutrimos “este amor a Deus que toma como paixão toda a vida” (CV, n.132).
[^1]: Referência ao conjunto de textos escolhidos de Hans Urs Von Balthasar, organizado e compilado por Rudy Albino numa obra intitulada: “Deus, eternamente jovem e surpreendente”.
[^2]: Para ulteriores aprofundamentos, indicamos a Carta Encíclica Sacerdotalis Caelibatus, do Papa Paulo VI, na qual o Pontífice busca “imprimir novo e ilustre vigor ao celibato sacerdotal” (n. 2), em resposta às crises morais, culturais e eclesiais - especialmente no campo da moral sexual - e às numerosas interrogações acerca da obrigatoriedade do celibato, próprias do contexto histórico do final da década de 1960.
Materiais complementares
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